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3 de dez. de 2009

Personagens Amazônicas

Boa Tarde!

Fé, coragem e persistência. Esses são alguns dos adjetivos que podem ser atribuídos a Everaldo da Costa. O homem residente em um bairro periférico de Vilhena, segue todos os dias para sua luta: fazer cobranças de duas lojas. E para dificultar um pouco mais sua jornada diária, pedala uma bicicleta com uma só perna. Esse perfil foi confeccionado por Raquel Jacob Gonçalves para atender a disciplina de Técnica de Entrevista Jornalística, ministrada pela Professora Patrícia da veiga Borges, em 2008. Boa leitura e boa descoberta.

Uma só perna sobre duas rodas

(Por: Raquel Gonçalves Jacob)


Segunda-feira. Cinco horas da manhã e o sol ainda não acordou. As casas, as flores, as pessoas, todas dormem. Menos os trabalhadores que pedalam suas bicicletas para se dirigirem ao trabalho. São mais de uma centena de magrelas que carregam os funcionários do frigorífico, ainda sonolentos e cansados. Observando a movimentação pelo barulho que as rodas fazem ao deslizar no asfalto está Everaldo da Costa, 47 anos, cobrador de uma das mais antigas lojas da Avenida Melvin Jones, e morador aos fundos do estabelecimento há quatro anos. “Acordo todos os dias quando ouço as bicicletas passarem, em geral eles andam em silêncio porque ainda tão com sono, por isso dá pra ouvir o barulho das bicicletas que já são mais surradinhas e batem bastante o pára-lama e outras peças que tão meio soltas”.
Depois de ser acordado pelas bicicletas e fazer um momento “a sós com Deus”, quando lê a Bíblia e ora, Everaldo toma um café preto para despertar, já em companhia da família, que acorda cedo por causa das meninas que vão para a escola. “Às vezes o café é medroso, aí vem acompanhado com pão caseiro e margarina, mas tem dias que ele fica corajoso e por isso vem sozinho”, fala o homem com sorriso nos lábios e em uma das mãos um copo que antes servira para armazenar extrato de tomate, agora cheio de café. Com a outra mão ele abre o portão para que eu entre. A cozinha de madeira, com uma mesa e quatro cadeiras de parafusos bambos, uma geladeira caramelo, uma pia, um fogão pequeno e uma prateleira de madeira; na outra extremidade do cômodo, um sofá e uma estante pequena de madeira, já com o verniz descascando; a TV de 14 polegadas ligada com a imagem chuviscada que a antena interna consegue transmitir. O cenário dá a impressão de uma casa simples e com pouco conforto.
Enquanto tomava café, ele me convidou para com ele fazer uma oração e ler um trecho da Bíblia em Mateus, capítulo 6, versículos de 19 a 21: “Não ajunteis para vós tesouros na terra; onde a traça e a ferrugem os consomem, e onde os ladrões minam e roubam; mas ajuntai para vós tesouros no céu, onde nem a traça nem a ferrugem os consumem, e onde os ladrões não minam nem roubam. Porque onde estiver o teu tesouro, aí estará também o teu coração”. A leitura foi acompanhada pelos olhos atentos da esposa, Dona Marlene, de 39 anos, e as duas filhas de 13 e 11 anos. “Sabe, eu não me preocupo em ter riquezas, porque um dia eu vou embora e não vou levar nada, tudo isso vai ficar por aí”.
O homem religioso ao extremo é membro da Igreja Assembleia de Deus, também situada na Avenida Melvin Jones. Estatura mediana, cabelos castanhos e crespos, mantidos em corte baixo, tipo físico magro, bermuda de brim e camiseta de malha colorida. Seria a descrição de um homem comum, não fosse o fato de ele ter apenas uma perna (a outra ele perdeu na altura da coxa em um acidente que sofreu quando tinha 17 anos).
Ao terminar o café, ele se prepara e vai trabalhar. Everaldo é aposentado por invalidez, mas só com o salário mínimo não consegue sustentar a família. O casal trabalha na loja de confecções que fica na frente da casa, em uma mesma construção. A mulher é responsável pela limpeza e pelo atendimento na lojinha, enquanto ele faz as cobranças. Everaldo ainda presta serviços para outra loja, no centro da cidade, também como cobrador. “Tem dias que é difícil trabalhar porque tem gente que dá nó até em pingo d’água, entende? E aí não consigo receber nada”, afirma, ao explicar que ganha a comissão em porcentagem sobre o que consegue receber dos clientes. Em troca do trabalho, o casal recebe a casa dos fundos da loja para morar: dois quartos, sala e cozinha juntas, um banheiro e uma área de serviços.
Já na loja, o homem aguarda a chefe separar as notas que estão vencidas. Com os papéis em uma pasta, ele parte em busca do sustento da família. O trabalho é todo feito de bicicleta. Para subir no veículo, Everaldo encosta-o no meio fio e passa o toco de perna por cima do quadro até se aconchegar no banco da magrela. Assim que saímos, perguntei a ele como conseguia manter o equilíbrio. “É prática, ando de bicicleta desde os meus seis anos, quando eu ainda morava no sítio e andava mais de 20 Km para ajudar meu pai na lavoura. Quando perdi a perna, foi só uma questão de acostumar”, explica. O acidente que o fez perder a perna foi em uma estrada vicinal próximo de Araputanga, interior de Mato Grosso, onde viveu até seus 20 anos, quando se casou pela primeira vez. “Peguei uma carona com o carro do leite para ir até a cidade, que a gente morava no sítio, aí o carro bateu com um caminhão boiadeiro que tava vindo no sentido contrário, entende? Aí eu caí e fiquei desacordado. Quando voltei em si eu tava no hospital em Cuiabá e depois de três dias descobri que tinham amputado a minha perna, os médicos explicaram lá, mas eu não entendi muito, sei que foi Deus que quis assim”. A narrativa foi seguida por silêncio.
Três quadras depois: “o sol está quente hoje, né?”, eu tentava puxar assunto outra vez. Everaldo gosta de falar bastante, mas quando se entristece com algum assunto, se retrai e mantém-se trancado dentro de si. Aos poucos, ele volta a falar. Conta que depois do acidente não teve mais como trabalhar a terra, então teve que se mudar para a cidade, para a casa de um tio, afinal, precisaria do acompanhamento médico que não poderia ter no sítio. Depois que se recuperou, já trabalhou como vendedor ambulante de utensílios domésticos, como zelador, e agora trabalha há três anos como cobrador.
Foi na cidade que conheceu a ex-mulher, Maria de Lourdes, com quem viveu seis anos e teve um filho agora com 25 anos, o mecânico Paulo Silva da Costa, que ainda mora em Araputanga. Para eles, a vida era muito complicada por causa da dificuldade financeira. As necessidades iam desde moradia até alimentação e por isso resolveram se mudar para a região sul de Rondônia, fixando residência em Colorado do Oeste, onde a vida continuou difícil. “Até que um dia eu falei pra ela, ‘olha, eu te tirei da casa do seu pai onde você tinha as coisas pra te trazer pra essa vida de miséria, e isso não está certo’, peguei ela e o menino, levei de volta pra Araputanga e deixei lá na casa do pai dela. Falei que o dia que as coisas mudassem eu voltava pra buscar eles. Quanto voltei, depois de dois anos, ela já tava com outro”.
A decepção amorosa fez com que Everaldo vivesse por cinco anos apenas pensando na própria sobrevivência. O filho ele passou a ver a cada dois anos, e por agora, não o vê há 11 anos. “Eu tinha vontade de conhecer meu irmão. De vez em quando o pai liga pra ele e eu até já falei com ele no telefone uma vez, mas não é a mesma coisa”, fala a filha mais velha do segundo casamento. A mais nova se limita apenas a afirmar que queria mesmo ver como é o irmão.
Com o tempo, Everaldo conheceu seu Sérgio Adão, que também frequenta a igreja. A filha de Sérgio, Marlene, acabou se tornando a nova paixão de Everaldo. “Ah quando eu a vi pela primeira vez, gostei e depois de um tempo, como o pai dela fazia muito gosto e era muito meu amigo, a gente acabou casando, desta vez, de papel passado. Já tem 14 anos e é pra vida toda”.
A casa de Sérgio Adão, 73 anos, fica há duas quadradas de onde mora a filha. O casebre de madeira fica entre dois pontos comerciais e tem cinco cômodos e uma área. Com telhas de zinco, cerca de madeira e beijo-de-estudante plantados na frente, a casa representa a arquitetura de grande parte das moradias na Avenida Melvin Jones. Na sala, em um sofá de tecido azul surrado e poído, um senhor de cabelos brancos, bigodudo e de pequena estatura fala sem parar. Carioca, seu Sérgio, conta histórias de aventuras sem limites, algumas que incorporou de relatos ouvidos, dos quais ele se coloca sempre como o protagonista. “O Everaldo eu conheci quando trabalhou comigo numa firma. Gostei dele porque era muito esforçado, quando muitos que têm o problema que ele tem iriam querer viver às custas do governo. O rapaz começou a ir na igreja a meu convite e depois passou a freqüentar minha casa e se enamorou da minha filha mais nova. A menina gostou dele e os dois acabaram casando. Dizem que sogro e genro é tudo é birrento um com o outro mas a gente se dá bem, porque tem o temor e o amor de Deus no meio, né?”, conta o aposentado.
Acaba o trabalho matutino, o estômago aponta que é meio-dia, hora do almoço. Everaldo vai para a loja e, em seguida, para sua casa. Depois de almoçar arroz, feijão, quiabo comprado na feira da avenida e carne moída, ele descansa enquanto ouve os principais acontecimentos da cidade pelo rádio. Depois, o homem volta à sua rotina sob a bicicleta em seu malabarismo diário de equilibrar-se com apenas uma perna.
Aos finais de semana, sua distração é a igreja. Mas, como é segunda-feira, Everaldo volta para casa depois de um dia cansativo, de muitas cobranças e pouco dinheiro em caixa. A noite é para descansar. Ele assiste TV com a mulher e as filhas. “O programa que ele mais gosta é jornal, pode ser da Globo ou do SBT, tanto faz, aliás ele gosta dos dois e nem deixa a gente ver a novela”, reclama a mulher. Com pulso firme, ele retruca: “Novela não edifica, não trás nada de bom pra gente, o bom mesmo é ver o jornal e saber o que está acontecendo”.
Quando o atrativo da TV não prende mais a atenção, Everaldo vai dormir. Para recomeçar no dia seguinte, quando as bicicletas vão acordá-lo outra vez.
Obs: Esse é um trabalho acadêmico produzido em 2008 e não remete totalmente a realidade atual. Se for utilizar favor citar a fonte e a autoria.

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26 de nov. de 2009

Personagens Amazônicas

Boa Tarde!
Ser mãe não é uma tarefa fácil. E se for uma mãe, mulher, dona de casa, artesã e costureira? É impossível? Não para Dani. A jovem que você vai conhecer a seguir consegue desempenhar todas essas funções. Confira o perfil confeccionado por Nubia Alves para a disciplina de Fotojornalismo II, ministrada pela Professora Doutora Elisabeth Kimie Kitamura, em 2008.


A família e mais um


(Por Núbia Alves)



Para Daniele Domingues Vargas, 25, ser mãe é realmente padecer no paraíso. Daniele é mãe do Nicolas, 5, e da Nicole 1 ano e 4 meses de vida. Apesar da pouca idade essa jovem mulher tem a responsabilidade de manter sozinha a sua família. Dani, assim carinhosamente chamada, costuma se queixar de sua mal sucedida vida amorosa. “Nunca tive sorte em meus relacionamentos amorosos”, conta. Ela foi casada durante três anos com o pai do Nicolas, mas a convivência começou a não dar certo, vieram as brigas, o ciúme e por fim a traição que foi o principal motivo que levou Dani a pedir o divórcio.
Seu marido Alexandre aceitou a separação numa boa, mas decidiu entrar na justiça e pedir a guarda do Nicolas, alegando que a mãe não tinha condição financeira para criar o menino. “Eu sofri muito nesse período, pensei que fosse perder meu filho para sempre”,lembra com lágrimas nos olhos. Depois de algumas audiências o juiz decidiu que o melhor para o menino era ficar ao lado da mãe e que Alexandre pagasse pensão todos os meses, além de ficar com o menino nos finais de semana.
Depois desse período conturbado de sua vida, decidiu não se relacionar prolongadamente com ninguém. Procurou apenas viver aventuras como na sua adolescência, claro sem esquecer de que tinha um filho. Foi em uma dessas aventuras que engravidou de Nicole em um relacionamento complicado que durou 3 meses. O fim desse relacionamento chegou quando Dani contou para o seu namorado (ela preferiu não citar o nome) que estava grávida. O rapaz não aceitou a gravidez e foi embora da cidade.
Dani diz que ele não faz falta nenhuma na educação de sua filha, pois ela conta com a ajuda de Deus para trabalhar e garantir a seus filhos todos os direitos de serem felizes. Ela conta, com a voz trêmula, que se casou mais com o intuito de sair de casa, já que sua mãe não a trata como uma filha. “Minha mãe diz que eu não sou a filha que ela gostaria de ter tido, porque não dei a ela o orgulho de ser uma doutora. Ela não me dá carinho nem conselhos quando preciso. Mas pelo menos ela gosta dos meus filhos. Eu me sinto abandonada e nem pai eu tenho pra correr para os braços dele nessas horas”.
Desde que se separou Dani mora de aluguel com seus filhos. “Já mudei mais ou menos umas 20 vezes aqui em Vilhena” revela. Ela conta que vê em seus filhos a força necessária para lutar por uma vida melhor e a sua maior satisfação é vê-los sorrindo ou quando a chamam de mãe. “É muito mágico esses momentos, isso me revigora”, relata toda satisfeita. Dani é uma mãe coruja, protetora e procura estar presente em todos os momentos de descoberta das crianças. Ela reclama que o Nicolas passa todos os finais de semana com o pai devido a decisão judicial. “Agora, até que estou mais acostumada. Tenho a Nicole que me toma toda a atenção” diz.

Agilidade, alegria e criatividade resumem bem essa mulher guerreira que aprendeu com seus próprios erros que a vida não é um faz de conta e sim uma história real que nós mesmos escrevemos. Quando falo em ser ágil estou me referindo aos desdobramentos que essa jovem dona de casa faz em seu dia-a-dia. “Pensa. Não é fácil, ser mãe, dona-de-casa, artesã e costureira ao mesmo tempo”, afirma Dani. Pois é, mas ela tira de letra essa correria todos os dias.

Sua rotina diária começa cedo, às 6 horas já está de pé preparando o café da manhã com carinho para as crianças. Em seguida lava a louça suja na pia e depois limpa a casa numa velocidade incrível. Feitos os serviços domésticos ela vai se sentar, mas não para descansar e sim para trabalhar em sua máquina de costura ou em seus artesanatos feitos com biscuit. É aí que entra a criatividade para criar personagens que darão as caras nas suas bonecas e objetos para decorações.

Terminada a manhã é hora de levar o Nicolas à escola. Agora entra em cena mais um membro da família, a Magrela, nome carinhoso que chama seu precioso meio de transporte, a bicicleta que apesar de não estar em um ótimo estado, os leva onde precisam ir. Dani teve que fazer algumas adaptações na Magrela para conseguir transportar toda a família. Com uma cor alaranjada desbotada, uma garupa prateada improvisada onde o Nicolas senta e uma cadeirinha preta de plástico onde vai a Nicole essas foram as adaptações feitas na magrela. É assim que a Magrela os leva para diversos destinos, seja levar ou buscar o Nicolas na escola, nos passeios diários ou nos fins de semana e também quando Dani precisa resolver alguns problemas no Centro da cidade. “A Magrela é sem dúvida muito importante em nossas vidas. Se não fosse ela eu não iria conseguir realizar todas as minhas tarefas diárias. Eu a considero, sim o quarto membro da família”, afirma Dani sorrindo.
Apesar de tanta correria, todo o dia Dani reserva um tempo livre para brincar com as crianças. E aí podemos observar não mais duas crianças e sim três. É com muita garra, humildade e determinação que essa mulher vive em uma luta contínua para garantir que nunca falte nada para seus filhos e que eles vivam em um lar onde se possa dizer que ali vive uma família feliz. “Eu posso dizer que hoje eu vivo em função dos meus filhos. Tudo o que eu faço é para eles, para mim eu não existo”, afirma contente.

Obs: Esse é um trabalho acadêmico produzido em 2008 e não remete totalmente a realidade atual. Se for utilizar favor citar a fonte e a autoria.

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19 de nov. de 2009

SESSÃO PRODUÇÕES

Olá....

Hoje teremos aqui no blog Voz UNIRversitária um perfil escrito pela acadêmica Daniela Simionatto Bruneto.

O texto foi produzido para a disciplina de Técnica de Entrevista, que foi ministrada pela Profª Patricia da Veiga Borges em 2008.




Ah, a Dona Marta*! Uma pessoa encantadora, com um sorriso enorme nos lábios pequenos. Sempre atenta e carinhosa não deixa de lado os seus deveres e o companheirismo com aqueles que a cercam.


É uma ‘baixinha porreta’, com olhos castanhos brilhantes, que com a boca miúda e sem batom faz ressaltar ainda mais a beleza de sua face. Tem a pele branca, mas por causa do Sol possui algumas manchas com tons mais escuros. Os cabelos longos, sempre presos, servem para conter a ‘cabeleira ruim’, como ela diz. Dona Marta com 41 anos de idade, mas nos registros 44 anos, tem uma voz doce e fina, comparada a de uma criança, e sempre dá gargalhadas contagiantes e verdadeiras.


Dona Marta é uma pessoa calma, querida e alegre. Tem um jeito próprio de tratar os próximos, e aqueles que ela mais gosta os chama de uma forma especial: “estrupicinho”. “Eu os chamo deste modo, porque são uns estrupícios que eu gosto”, diz ela. Dona Marta é assim, quando gosta de alguém, a trata de um jeito diferenciado, cheio de carinho ou de ‘dengo’ – como ela diz. Entretanto, quando alguém a fere, a magoa, se afasta, mas não “sem desabafar e colocar todos os pingos nos ‘is’. Acredito que devemos ser humildes, tratar a todos com educação, mas nunca podemos deixar que nos humilhem. Todos nós somos iguais”, fala Dona Marta de forma confiante.


Ela tem uma personalidade forte, sofreu muito na vida e agora luta contra um preconceito antigo.
Ela nasceu e cresceu no sul de Mato Grosso, mas deixou a cidade aos 17 anos, com uma filha nos braços e dois filhos no céu. Largou a casa e o casamento arranjado pelos pais depois de anos de agressões cometidas pelo seu marido.


Aos treze anos, ‘quando ainda brincava de boneca’ – diz ela – foi violentada pelo seu padrasto. “Ele foi o primeiro homem que eu conheci e a primeira pessoa que odiei”, assim ela fala sobre os seus sentimentos com relação ao seu pai. Com os olhos fixos e úmidos contou que além de espancá-la sem motivos, passou a estuprá-la e para abafar quaisquer comentários que pudessem surgir a forçou a se casar com um homem que a Marta Menina nem conhecia.


Para este casamento a família da Dona Marta adulterou a sua certidão de nascimento, mudando os registros de aniversário do dia 11 de março de 1968 para dia 12 de fevereiro de 1965. Desta forma poderiam fazê-la casar para camuflar a violência do pai. Depois de casados começou a ser agredida física e emocionalmente. Cansada e com medo do que o seu marido poderia fazer com Fernanda*, sua filha, saiu de casa.


Com a decisão tomada, as malas em uma mão, e a filha em outra procurou ajuda na casa de seus pais que não a aceitaram de volta. Sem terem para onde ir, passaram algumas noites dormindo na rua até receberem ajuda, acolhida de uma senhora de boa aparência, mas que era proprietária de uma casa de garotas de programa. Cansada e com fome aceitou a ajuda. Logo começou a trabalhar no lugar.


Alguns anos depois, Dona Marta conheceu um homem por quem se apaixonou. Casaram-se e mudaram de cidade. Foram para Porto Velho. “Esse foi o momento mais feliz da minha vida, tinha ao meu lado a minha filha e uma pessoa que eu gostava”, mas logo esse encanto acabou. O marido que era pedreiro, apesar de gostar dela, não a via como uma mulher e sim como uma ex-garota de programa. Quando ele se zangava a humilhava e lembrava que quem havia tirado ela daquela vida tinha sido ele. Sem entender e muito magoada, novamente saiu de casa. Viveu naquela cidade por mais alguns anos, até resolver mudar-se novamente.


Há cinco anos Dona Marta vive em Colorado do Oeste, tem uma casa pequena, mas muito aconchegante. Leva outra vida, agora trabalha em um órgão público, é uma mulher muito respeitada e querida. Ela não tem vergonha de ter sido “mulher da vida”, pois sabe que seguiu esse caminho para ter onde morar e como sustentar a sua filha. Mas tem vergonha sim da família que teve, do pai agressivo e da mãe ausente. “O que eu sofri eu não desejo a ninguém”, concluiu Dona Marta.



*(Dona Marta e Fernanda são nomes fictícios usados para guardara privacidade das personagens principais do texto.)
Obs: Esse é um trabalho acadêmico produzido em 2008 e não remete totalmente a realidade atual.
Se for utilizar favor citar a fonte e a autoria.