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3 de dez. de 2009

Personagens Amazônicas

Boa Tarde!

Fé, coragem e persistência. Esses são alguns dos adjetivos que podem ser atribuídos a Everaldo da Costa. O homem residente em um bairro periférico de Vilhena, segue todos os dias para sua luta: fazer cobranças de duas lojas. E para dificultar um pouco mais sua jornada diária, pedala uma bicicleta com uma só perna. Esse perfil foi confeccionado por Raquel Jacob Gonçalves para atender a disciplina de Técnica de Entrevista Jornalística, ministrada pela Professora Patrícia da veiga Borges, em 2008. Boa leitura e boa descoberta.

Uma só perna sobre duas rodas

(Por: Raquel Gonçalves Jacob)


Segunda-feira. Cinco horas da manhã e o sol ainda não acordou. As casas, as flores, as pessoas, todas dormem. Menos os trabalhadores que pedalam suas bicicletas para se dirigirem ao trabalho. São mais de uma centena de magrelas que carregam os funcionários do frigorífico, ainda sonolentos e cansados. Observando a movimentação pelo barulho que as rodas fazem ao deslizar no asfalto está Everaldo da Costa, 47 anos, cobrador de uma das mais antigas lojas da Avenida Melvin Jones, e morador aos fundos do estabelecimento há quatro anos. “Acordo todos os dias quando ouço as bicicletas passarem, em geral eles andam em silêncio porque ainda tão com sono, por isso dá pra ouvir o barulho das bicicletas que já são mais surradinhas e batem bastante o pára-lama e outras peças que tão meio soltas”.
Depois de ser acordado pelas bicicletas e fazer um momento “a sós com Deus”, quando lê a Bíblia e ora, Everaldo toma um café preto para despertar, já em companhia da família, que acorda cedo por causa das meninas que vão para a escola. “Às vezes o café é medroso, aí vem acompanhado com pão caseiro e margarina, mas tem dias que ele fica corajoso e por isso vem sozinho”, fala o homem com sorriso nos lábios e em uma das mãos um copo que antes servira para armazenar extrato de tomate, agora cheio de café. Com a outra mão ele abre o portão para que eu entre. A cozinha de madeira, com uma mesa e quatro cadeiras de parafusos bambos, uma geladeira caramelo, uma pia, um fogão pequeno e uma prateleira de madeira; na outra extremidade do cômodo, um sofá e uma estante pequena de madeira, já com o verniz descascando; a TV de 14 polegadas ligada com a imagem chuviscada que a antena interna consegue transmitir. O cenário dá a impressão de uma casa simples e com pouco conforto.
Enquanto tomava café, ele me convidou para com ele fazer uma oração e ler um trecho da Bíblia em Mateus, capítulo 6, versículos de 19 a 21: “Não ajunteis para vós tesouros na terra; onde a traça e a ferrugem os consomem, e onde os ladrões minam e roubam; mas ajuntai para vós tesouros no céu, onde nem a traça nem a ferrugem os consumem, e onde os ladrões não minam nem roubam. Porque onde estiver o teu tesouro, aí estará também o teu coração”. A leitura foi acompanhada pelos olhos atentos da esposa, Dona Marlene, de 39 anos, e as duas filhas de 13 e 11 anos. “Sabe, eu não me preocupo em ter riquezas, porque um dia eu vou embora e não vou levar nada, tudo isso vai ficar por aí”.
O homem religioso ao extremo é membro da Igreja Assembleia de Deus, também situada na Avenida Melvin Jones. Estatura mediana, cabelos castanhos e crespos, mantidos em corte baixo, tipo físico magro, bermuda de brim e camiseta de malha colorida. Seria a descrição de um homem comum, não fosse o fato de ele ter apenas uma perna (a outra ele perdeu na altura da coxa em um acidente que sofreu quando tinha 17 anos).
Ao terminar o café, ele se prepara e vai trabalhar. Everaldo é aposentado por invalidez, mas só com o salário mínimo não consegue sustentar a família. O casal trabalha na loja de confecções que fica na frente da casa, em uma mesma construção. A mulher é responsável pela limpeza e pelo atendimento na lojinha, enquanto ele faz as cobranças. Everaldo ainda presta serviços para outra loja, no centro da cidade, também como cobrador. “Tem dias que é difícil trabalhar porque tem gente que dá nó até em pingo d’água, entende? E aí não consigo receber nada”, afirma, ao explicar que ganha a comissão em porcentagem sobre o que consegue receber dos clientes. Em troca do trabalho, o casal recebe a casa dos fundos da loja para morar: dois quartos, sala e cozinha juntas, um banheiro e uma área de serviços.
Já na loja, o homem aguarda a chefe separar as notas que estão vencidas. Com os papéis em uma pasta, ele parte em busca do sustento da família. O trabalho é todo feito de bicicleta. Para subir no veículo, Everaldo encosta-o no meio fio e passa o toco de perna por cima do quadro até se aconchegar no banco da magrela. Assim que saímos, perguntei a ele como conseguia manter o equilíbrio. “É prática, ando de bicicleta desde os meus seis anos, quando eu ainda morava no sítio e andava mais de 20 Km para ajudar meu pai na lavoura. Quando perdi a perna, foi só uma questão de acostumar”, explica. O acidente que o fez perder a perna foi em uma estrada vicinal próximo de Araputanga, interior de Mato Grosso, onde viveu até seus 20 anos, quando se casou pela primeira vez. “Peguei uma carona com o carro do leite para ir até a cidade, que a gente morava no sítio, aí o carro bateu com um caminhão boiadeiro que tava vindo no sentido contrário, entende? Aí eu caí e fiquei desacordado. Quando voltei em si eu tava no hospital em Cuiabá e depois de três dias descobri que tinham amputado a minha perna, os médicos explicaram lá, mas eu não entendi muito, sei que foi Deus que quis assim”. A narrativa foi seguida por silêncio.
Três quadras depois: “o sol está quente hoje, né?”, eu tentava puxar assunto outra vez. Everaldo gosta de falar bastante, mas quando se entristece com algum assunto, se retrai e mantém-se trancado dentro de si. Aos poucos, ele volta a falar. Conta que depois do acidente não teve mais como trabalhar a terra, então teve que se mudar para a cidade, para a casa de um tio, afinal, precisaria do acompanhamento médico que não poderia ter no sítio. Depois que se recuperou, já trabalhou como vendedor ambulante de utensílios domésticos, como zelador, e agora trabalha há três anos como cobrador.
Foi na cidade que conheceu a ex-mulher, Maria de Lourdes, com quem viveu seis anos e teve um filho agora com 25 anos, o mecânico Paulo Silva da Costa, que ainda mora em Araputanga. Para eles, a vida era muito complicada por causa da dificuldade financeira. As necessidades iam desde moradia até alimentação e por isso resolveram se mudar para a região sul de Rondônia, fixando residência em Colorado do Oeste, onde a vida continuou difícil. “Até que um dia eu falei pra ela, ‘olha, eu te tirei da casa do seu pai onde você tinha as coisas pra te trazer pra essa vida de miséria, e isso não está certo’, peguei ela e o menino, levei de volta pra Araputanga e deixei lá na casa do pai dela. Falei que o dia que as coisas mudassem eu voltava pra buscar eles. Quanto voltei, depois de dois anos, ela já tava com outro”.
A decepção amorosa fez com que Everaldo vivesse por cinco anos apenas pensando na própria sobrevivência. O filho ele passou a ver a cada dois anos, e por agora, não o vê há 11 anos. “Eu tinha vontade de conhecer meu irmão. De vez em quando o pai liga pra ele e eu até já falei com ele no telefone uma vez, mas não é a mesma coisa”, fala a filha mais velha do segundo casamento. A mais nova se limita apenas a afirmar que queria mesmo ver como é o irmão.
Com o tempo, Everaldo conheceu seu Sérgio Adão, que também frequenta a igreja. A filha de Sérgio, Marlene, acabou se tornando a nova paixão de Everaldo. “Ah quando eu a vi pela primeira vez, gostei e depois de um tempo, como o pai dela fazia muito gosto e era muito meu amigo, a gente acabou casando, desta vez, de papel passado. Já tem 14 anos e é pra vida toda”.
A casa de Sérgio Adão, 73 anos, fica há duas quadradas de onde mora a filha. O casebre de madeira fica entre dois pontos comerciais e tem cinco cômodos e uma área. Com telhas de zinco, cerca de madeira e beijo-de-estudante plantados na frente, a casa representa a arquitetura de grande parte das moradias na Avenida Melvin Jones. Na sala, em um sofá de tecido azul surrado e poído, um senhor de cabelos brancos, bigodudo e de pequena estatura fala sem parar. Carioca, seu Sérgio, conta histórias de aventuras sem limites, algumas que incorporou de relatos ouvidos, dos quais ele se coloca sempre como o protagonista. “O Everaldo eu conheci quando trabalhou comigo numa firma. Gostei dele porque era muito esforçado, quando muitos que têm o problema que ele tem iriam querer viver às custas do governo. O rapaz começou a ir na igreja a meu convite e depois passou a freqüentar minha casa e se enamorou da minha filha mais nova. A menina gostou dele e os dois acabaram casando. Dizem que sogro e genro é tudo é birrento um com o outro mas a gente se dá bem, porque tem o temor e o amor de Deus no meio, né?”, conta o aposentado.
Acaba o trabalho matutino, o estômago aponta que é meio-dia, hora do almoço. Everaldo vai para a loja e, em seguida, para sua casa. Depois de almoçar arroz, feijão, quiabo comprado na feira da avenida e carne moída, ele descansa enquanto ouve os principais acontecimentos da cidade pelo rádio. Depois, o homem volta à sua rotina sob a bicicleta em seu malabarismo diário de equilibrar-se com apenas uma perna.
Aos finais de semana, sua distração é a igreja. Mas, como é segunda-feira, Everaldo volta para casa depois de um dia cansativo, de muitas cobranças e pouco dinheiro em caixa. A noite é para descansar. Ele assiste TV com a mulher e as filhas. “O programa que ele mais gosta é jornal, pode ser da Globo ou do SBT, tanto faz, aliás ele gosta dos dois e nem deixa a gente ver a novela”, reclama a mulher. Com pulso firme, ele retruca: “Novela não edifica, não trás nada de bom pra gente, o bom mesmo é ver o jornal e saber o que está acontecendo”.
Quando o atrativo da TV não prende mais a atenção, Everaldo vai dormir. Para recomeçar no dia seguinte, quando as bicicletas vão acordá-lo outra vez.
Obs: Esse é um trabalho acadêmico produzido em 2008 e não remete totalmente a realidade atual. Se for utilizar favor citar a fonte e a autoria.

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26 de nov. de 2009

Personagens Amazônicas

Boa Tarde!
Ser mãe não é uma tarefa fácil. E se for uma mãe, mulher, dona de casa, artesã e costureira? É impossível? Não para Dani. A jovem que você vai conhecer a seguir consegue desempenhar todas essas funções. Confira o perfil confeccionado por Nubia Alves para a disciplina de Fotojornalismo II, ministrada pela Professora Doutora Elisabeth Kimie Kitamura, em 2008.


A família e mais um


(Por Núbia Alves)



Para Daniele Domingues Vargas, 25, ser mãe é realmente padecer no paraíso. Daniele é mãe do Nicolas, 5, e da Nicole 1 ano e 4 meses de vida. Apesar da pouca idade essa jovem mulher tem a responsabilidade de manter sozinha a sua família. Dani, assim carinhosamente chamada, costuma se queixar de sua mal sucedida vida amorosa. “Nunca tive sorte em meus relacionamentos amorosos”, conta. Ela foi casada durante três anos com o pai do Nicolas, mas a convivência começou a não dar certo, vieram as brigas, o ciúme e por fim a traição que foi o principal motivo que levou Dani a pedir o divórcio.
Seu marido Alexandre aceitou a separação numa boa, mas decidiu entrar na justiça e pedir a guarda do Nicolas, alegando que a mãe não tinha condição financeira para criar o menino. “Eu sofri muito nesse período, pensei que fosse perder meu filho para sempre”,lembra com lágrimas nos olhos. Depois de algumas audiências o juiz decidiu que o melhor para o menino era ficar ao lado da mãe e que Alexandre pagasse pensão todos os meses, além de ficar com o menino nos finais de semana.
Depois desse período conturbado de sua vida, decidiu não se relacionar prolongadamente com ninguém. Procurou apenas viver aventuras como na sua adolescência, claro sem esquecer de que tinha um filho. Foi em uma dessas aventuras que engravidou de Nicole em um relacionamento complicado que durou 3 meses. O fim desse relacionamento chegou quando Dani contou para o seu namorado (ela preferiu não citar o nome) que estava grávida. O rapaz não aceitou a gravidez e foi embora da cidade.
Dani diz que ele não faz falta nenhuma na educação de sua filha, pois ela conta com a ajuda de Deus para trabalhar e garantir a seus filhos todos os direitos de serem felizes. Ela conta, com a voz trêmula, que se casou mais com o intuito de sair de casa, já que sua mãe não a trata como uma filha. “Minha mãe diz que eu não sou a filha que ela gostaria de ter tido, porque não dei a ela o orgulho de ser uma doutora. Ela não me dá carinho nem conselhos quando preciso. Mas pelo menos ela gosta dos meus filhos. Eu me sinto abandonada e nem pai eu tenho pra correr para os braços dele nessas horas”.
Desde que se separou Dani mora de aluguel com seus filhos. “Já mudei mais ou menos umas 20 vezes aqui em Vilhena” revela. Ela conta que vê em seus filhos a força necessária para lutar por uma vida melhor e a sua maior satisfação é vê-los sorrindo ou quando a chamam de mãe. “É muito mágico esses momentos, isso me revigora”, relata toda satisfeita. Dani é uma mãe coruja, protetora e procura estar presente em todos os momentos de descoberta das crianças. Ela reclama que o Nicolas passa todos os finais de semana com o pai devido a decisão judicial. “Agora, até que estou mais acostumada. Tenho a Nicole que me toma toda a atenção” diz.

Agilidade, alegria e criatividade resumem bem essa mulher guerreira que aprendeu com seus próprios erros que a vida não é um faz de conta e sim uma história real que nós mesmos escrevemos. Quando falo em ser ágil estou me referindo aos desdobramentos que essa jovem dona de casa faz em seu dia-a-dia. “Pensa. Não é fácil, ser mãe, dona-de-casa, artesã e costureira ao mesmo tempo”, afirma Dani. Pois é, mas ela tira de letra essa correria todos os dias.

Sua rotina diária começa cedo, às 6 horas já está de pé preparando o café da manhã com carinho para as crianças. Em seguida lava a louça suja na pia e depois limpa a casa numa velocidade incrível. Feitos os serviços domésticos ela vai se sentar, mas não para descansar e sim para trabalhar em sua máquina de costura ou em seus artesanatos feitos com biscuit. É aí que entra a criatividade para criar personagens que darão as caras nas suas bonecas e objetos para decorações.

Terminada a manhã é hora de levar o Nicolas à escola. Agora entra em cena mais um membro da família, a Magrela, nome carinhoso que chama seu precioso meio de transporte, a bicicleta que apesar de não estar em um ótimo estado, os leva onde precisam ir. Dani teve que fazer algumas adaptações na Magrela para conseguir transportar toda a família. Com uma cor alaranjada desbotada, uma garupa prateada improvisada onde o Nicolas senta e uma cadeirinha preta de plástico onde vai a Nicole essas foram as adaptações feitas na magrela. É assim que a Magrela os leva para diversos destinos, seja levar ou buscar o Nicolas na escola, nos passeios diários ou nos fins de semana e também quando Dani precisa resolver alguns problemas no Centro da cidade. “A Magrela é sem dúvida muito importante em nossas vidas. Se não fosse ela eu não iria conseguir realizar todas as minhas tarefas diárias. Eu a considero, sim o quarto membro da família”, afirma Dani sorrindo.
Apesar de tanta correria, todo o dia Dani reserva um tempo livre para brincar com as crianças. E aí podemos observar não mais duas crianças e sim três. É com muita garra, humildade e determinação que essa mulher vive em uma luta contínua para garantir que nunca falte nada para seus filhos e que eles vivam em um lar onde se possa dizer que ali vive uma família feliz. “Eu posso dizer que hoje eu vivo em função dos meus filhos. Tudo o que eu faço é para eles, para mim eu não existo”, afirma contente.

Obs: Esse é um trabalho acadêmico produzido em 2008 e não remete totalmente a realidade atual. Se for utilizar favor citar a fonte e a autoria.

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24 de nov. de 2009

Personagens Amazônicas

Boa tarde!

Hoje a sessão "Personagens Amazônicas" traz o perfil de Ivanildo. Um senhor com mais de 70 anos, que relembra de bons e maus momentos vividos. O trabalho acadêmico foi confeccionado pela discente Divania Rodrigues, para atender a disciplina Fotojornalismo II, ministrada pela Professora Doutora Elisabeth Kimie Kitamura em 2008. Boa leitura e até a próxima.


O que passou...

Apesar de 74 anos e cabelos totalmente brancos, a expressão lúcida e o corpo rijo e forte desmentem a idade. “Ainda ando a cidade inteirinha de bicicleta”, conta, orgulhoso de sua independência. Ivanildo Benedito Rodrigues vive sozinho desde a morte do pai em 1998 de quem cuidava após a perda da mãe, em 1991. Nunca se casou e hoje mora em uma casinha no fim do bairro Cristo Rei. “Quem mora do lado de cá [da BR] não tem vez”, desabafa com desgosto, referindo-se ao bairro em que mora.

Quando chego a casa está toda fechada. Me aproximo e ouço uma voz narrando um jogo de futebol. Chamo. Benção tio, como vai? “Vou levando, empurrando”, diz, vindo lá de dentro. Um short e um chinelo velho que não se arrasta no chão. A barriga passando por cima da cinta. Uns óculos por trás do qual vejo seus olhos. Um que olha fixamente: imóvel, de vidro. O outro que tenta compensar, movendo-se e prestando atenção o tempo todo.

A conversa gira em torno de bananas, e o quanto estão caras, todo o tipo delas. “Não gosto de bananas. Não como desde que vim da fazenda”. Conto-lhe então o que venho fazer ali. E a resposta é rápida: “O passado é pra ficar no passado. Quase que já sofri um pouquim nessa vida. Não gosto nem de lembrar”.

A casa de madeira, mal pintada com tinta à base d’água, consta de uma sala-cozinha divida por um armário antigo. No fim da cozinha há um banheiro de tijolos, criando lodo no reboco por causa da umidade constante por muito tempo. Tem dois quartos: um em que se passa pela sala, de frente para rua, e o outro pela cozinha.

A sala tem dois sofás com o forro todo remendado e uma TV de 20 polegadas colorida que fica em cima de uma espécie de cofre em madeira. Na cozinha, uma geladeira amarela, muito antiga, rebocada de esmalte vermelho para parar a corrosão da ferrugem. Um fogão, daqueles que nem devem ser mais fabricados, esmaltado e com partes vermelhas. Alguns armários, pia com muita louça, camisas e cintos em cima das portas. No quarto dos fundos, que pertencia a seu pai, muitas coisas antigas, empilhadas, muita poeira. No quarto da frente um pouco menos de bagunça, mas ainda assim poeira nos móveis.

As fotos da família estão guardadas no “cofre de madeira”. Começamos a olhá-las. No início risos, brilho no olho. “As terras do meu avô davam um município que nem esse. Fazia muitas travessuras”. Muitas? Conta uma. “O pai fazia umas cangas de boi em miniatura, daí eu colocava nos pintinhos e amarrava uns sabugos [de milho] pra eles carregar. Tudo no escondido. Um dia a mamãe descobriu e ó...” (fazendo com a mão o sinal de surra, aquele em se movimenta a mão para baixo rapidamente fazendo estralar o dedo indicador, e rindo muito).

Mas, dentre as travessuras que cometeu, uma o marcou para sempre. Quem conta é o irmão mais novo, Diorandes José. “Ele deveria ter uns seis anos e eu nem era nascido, ele tava descascando uma laranja com um canivete, daí não sei o que aconteceu e o canivete foi dentro do olho dele. Não teve jeito mesmo. Depois de muito tempo ele colocou o vidro no lugar. Ele não vê nada de um olho, e do outro precisa de óculos”.

De bicicleta a vida se desenrola...

Roubaram mesmo a casa do primo, tio? “Pra você vê, os ladrões tão em toda a parte e até lá no centro tem roubo. Mas aqui é que é feio. Nem ando saindo mais de casa, muito. Só saio quando é preciso, pra ir na farmácia, na caixa [Caixa Econômica Federal]. E quando vou na caixa deixo a bicicleta em frente a farmácia Central. A caixa é um chamariz para ladrão, o que roubam de bicicleta ali não tá escrito, mas na cidade também anda dimais. Sempre ouço no rádio, é cinco, seis por dia. Isso é o que dão queixa na polícia, fora as outras”. Mas as voltas que o tio dá são só para ir a esses lugares? “Não às vezes vô fazê compra...”, tento completar: no médico... “Não! Esses médico daqui não vale nada”, esbraveja, descrente.
Rotina de bicicleta, que ele até se esqueceu de mencionar, é levar e buscar a filha da vizinha na crechê. A moça trabalha e não tem como estar nos horários certos em casa para se encarregar dessa tarefa. Pediu ao meu tio que fizesse isso por ela. Ele então todos os dias, com sua bicicleta, leva e traz a menina da creche para casa.
A conversa continua. “Mas de vez em quando saio só para passear. No Natal do ano trasado (passado) eu fui sozinho lá no setor industrial. Uns parentes da vizinha aqui me convidaram para passar o dia lá. Queriam vir me buscar de moto. Mas, eu hein! Falei: nada! Vou de bicicleta mesmo, que daí vô a hora que quero e volto a hora que quero sem atrapalhar ninguém. Cheguei lá, fiquei um tempo, tomei umas duas cervejinhas. Aí falei que ia vir embora. O pessoal nem acreditou quando muntei na bicicleta e vim. Acharam que eu ia cair. Nunca caí ou sofri um acidente de trânsito que eu provoquei”.
Mas esses tempos atrás foi atropelado por uma moto? “Não gosto nem de lembrar. Achei que ia morrer. Eu fui fazer um favor para a vizinha lá no Centro. Daí quando tava voltando pela Melvin uma mulher de moto foi me ultrapassar pela direita. Não sei o que ela queria, daí um guidon engarranchou no outro e eu caí, de costas. Fiquei um tempão no chão, sem poder levantar ou falar nada. Ela parou, me perguntou se tinha machucado e logo depois foi embora porque eu não falei nada, mas eu não tinha nem um ralado. Daí um senhor da igreja da Maria Helena, que mora aqui perto, me ajudou a levantar e disse que tinha anotado o número da placa dela no celular. Mas, fazê o que, eu não tinha nenhum ralado para ir no CESP (Hospital Regional) e ir na polícia dá queixa. Cheguei em casa todo cheio de lama e com muita dor”. Lama? “É na Melvin o que tem é lama, pelo menos onde eu ando que é bem perto do meio fio, não ando no meio da rua como os outros fazem, é errado. É o que sobra da rua para os bicicleteiros: é a lama. Ando no máximo uns 70 centímetros afastado do meio fio”.
O tio não foi ao hospital? “Não! Fica pior lá. No dia não tinha forças pra nada. O marido da vizinha veio aqui no meio da tarde, conversamos, mas ele não foi buscar remédio pra mim. Eu não tinha nem coragem de levantar da cama naquele dia. Só no outro dia é que juntei força pra ir na farmácia”. Ainda bem que tudo passou”.

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23 de nov. de 2009

Personagens Amazônicas

Olá.
Inaugurando a sessão "Personagens amazônicas" trazemos um perfil confeccionado pelo acadêmico Flávio Godoi, da turma III de Jornalismo. O retrato de "Andréia Machado" foi feito para atender a disciplina de Fotojornalismo II, ministrada pela Professora Doutora Elisabeth Kimie Kitamura em 2008.

A Bike Repórter

perfil de Andréia Machado



Prólogo

Andréia Santos Machado, carrega consigo algo único e totalmente original, diferente de qualquer pessoa que se possa conhecer. Nascida em Colorado do Oeste, Andréia veio para Vilhena aos nove meses de idade, cresceu fazendo travessuras com o irmão mais velho. Hoje, registrar o cotidiano da cidade é mais do que a sua profissão, é o desafio de sustentar suas três filhas, ser dona de casa, arrumar tempo para o marido e ainda cursar a faculdade de Jornalismo à noite.



CCC – Caderneta, Caneta e Câmera

Os sonhos fazem parte do cotidiano desta mãe-mulher-filha. Ganhar dinheiro sem ter que fazer muito esforço são comentários constantes nos diálogos futuristas de Andréia. Enquanto este dia não chega, leva a vida como repórter, uma profissão que encara com muitos desafios.


Morando a quase 50 quadras do jornal em que escreve, Andréia acorda todas as manhãs, após receber as pautas que deve cumprir, apanha sua bicicleta azul com a tintura gasta pelo tempo, pendura o crachá que contém o seu nome e o do veículo de comunicação que trabalha, no bolso do short (sim, pois como tem que pedalar grandes distâncias, uma roupa leve sempre é a opção de Andréia ao sair de encontro as reportagens) e se transforma na bike repórter mais ágil de Vilhena.


Tamanha eficácia em narrar os principais acontecimentos da cidade é compreendido pelo fato de que, para Andréia, qualquer lugar em que ela possa sentar e ficar protegida do sol se torna sua sala da redação. Com sua caderneta e a caneta sempre ao alcance das mãos, esta jornalista sem regalias, escreve a maioria de suas matérias tendo o cenário da população em seu momento de lazer como ambiente. Uma praça onde o vento faça o papel secar seu suor, consequencia da longa jornada de bicicleta, é o lugar ideal.


Por ter que cobrir outros fatos, Andréia esboça uma matéria sentada no banco da praça em menos de 10 minutos. Após fazer este serviço, monta novamente em sua amiga inseparável, única companheira que, além da câmera digital que carrega, presencia entrevistas e situações que no final de semana estarão estampadas nas páginas dos jornais.


Em uma cidade onde o trânsito está sendo considerado um dos mais caóticos do estado, andar de bicicleta para registrar as manchetes pode ter um efeito inverso e transformar o jornalista na manchete principal das páginas de acidentes. Admitindo que tem muito medo de circular pelas ruas e avenidas de Vilhena, onde um ciclista não é respeitado pelos outros personagens que trafegam na cidade, Andréia revela que o único lugar que sente prazer em pedalar é na ciclovia da Avenida Paraná. Porém este espaço reservado para quem vê na bicicleta um instrumento de trabalho ou lazer é único na cidade, único e passageiro, pois para Andréia a ciclovia da Avenida Paraná termina ao começar. Sua residência fica a três quadras da ciclovia e como a grande parte das pautas que tem que cumprir são encontradas no Centro, a ciclovia serve apenas como o “início da partida e fim da chegada”.

A partida em uma das manhãs rumo ao registro dos fatos, por coincidência, levaria Andréia ao cemitério esquecido pelo governo das bicicletas roubadas em Vilhena, na 1° Delegacia de Polícia Civil. A cena que a bike repórter encontrou lhe causou um aperto no coração, como em outras tantas vezes em que viu diante de uma situação de desrespeito, injustiça e poder concentrado.


Centenas de bicicletas amontoadas uma sobre as outras, algumas ainda com serventia, outras, devido à ação do tempo já eram sucatas. Quantas pessoas assim como Andréia dependiam deste meio de transporte para sustentar suas famílias e por uma montanha ainda maior do que as das bicicletas, a montanha da burocracia, assistem seus veículos serem consumidos, expostos à chuva e ao sol.


O cemitério das bicicletas de Vilhena é a prova da marcante presença deste meio de transporte no dia-dia deste povo. A ciclovia que marca o fim da chegada de Andréia em sua casa depois de mais um dia de trabalho, também faz parte da rotina de inúmeras Andréias, representadas por homens e mulheres vilhenenses. As histórias destas pessoas são as fontes de trabalho da bike repórter mais ágil de Vilhena, Andréia Santos Machado.


Obs: Esse é um trabalho acadêmico produzido em 2008 e não remete totalmente a realidade atual. Se for utilizar favor citar a fonte e a autoria.

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